
Enquanto eu corria pela Getúlio Vargas, já atrasada para chegar ao Cemitério do Água Verde fui pensando em como eu não queria culpar o motorista do ônibus por ter me dado uma informação incorreta. Até porque um ponto, ou três quadras de distância não são exatamente um problema. Mas poderia ter sido e aquela inocente informação errada poderia ter sido determinante para que eu chegasse no cemitério a ponto de ver ser enterrado o corpo do meu tio-avó, o tio João (77 anos, advogado, filho de Ângelo e Ana Sequinel, conforme a Gazeta de hoje).
Graças às informações da minha tia, que encontrei na saída e é a pessoa mais bem localizada que já conheci, cheguei a tempo, graças também ao Tio João ter comprado um lote quase no muro com a José Cadilhe, o que obrigou as cerca de 150 pessoas que acompanhavam o cortejo a atravessar quase toda a extensão do cemitério.
|Muitas flores e lembranças com cara de nova enfeitavam o local, dando uma cara de que o diade finados por vir seria movimentado. Eu, que gosto de cemitérios pela sua arquitetura, decoração e por o que significam em termos de memória, acho que aprendi a respeitar a cerimônia do guardamento e enterro. Ainda que eu respeite quem tenha asco por ter sofrido perdas traumáticas, não entendeu nada quem simplesmente diz que “não gosta de ir”, quando não é você a questão e sim os outros, e é por eles que você está ali. No meu caso, mais do que qualquer pessoa, para estar com a minha mãe, uma das últimas pessoas a ter visto o tio em vida.
Embora meu tio fosse Sequinel, não me passou pela cabeça estranhar que estavam lá todos os Rosa, estes sim parentes de sangue da minha tia Nezinha, dentre os quais estava o meu pai, e parece que o deputado Stephanes Jr. o estranhou quando passou pelo guardamento “o que o Piva está fazendo aqui?”. Aliás, foi em conversas sobre este meu tio que, quando criança, descobri que havia pessoas na família que não eram de esquerda, muito pelo contrário e eventualmente isso causa desconfortos, como tempos atrás no aniversário da minha avó quando o prefeito tucano de uma cidade do interior teve que ser retirar quando, após uns bons goles, meu tio-avô caçula começou a gritar que o PSDB odiava o povo e o Lula tinha salvado o Brasil.
Não muito tempo depois o caixão logo foi fazer companhia ao tio Anderson, que lá está desde 2005 e foi a primeira pessoa próxima da família a morrer, embora eu não consiga lembrar nem seu rosto nem nenhum momento em que esteve presente na minha vida.
A morte de uma pessoa mais velha não é lamentada com o choro, é antes uma tristeza no olhar, uma falta de brilho, uma tristeza de quem sabe a grandeza da vida que vai embora, ainda que não se permita ser pego de surpresa. Ou talvez isso seja um pouco o espiritismo, e sei que não leva muito tempo para em um evento familiar ouvir o comentário “o João esteve lá no Centro esta semana. Diz ele que está bem, e que está cuidando de outros espíritos por lá”.
