Hoje indo pegar o ônibus escutei um cara gritar “ô, guria”. Continuei andando, na esperança de fingir ter achado não ser comigo. Ouvi de novo, olhei pro lado e o cara me olhava, rindo, sentando no banco do carona do carro de um amigo dele que também me olhava rindo. Respondi mostrando meu dedo do meio, sem olhar, em uma pequena vingancinha pessoal boba que me deixou pelo menos aliviada. Foi eu entrar no tubo e um carro parou no sinaleiro, buzinou e gritou para mim “quer carona?”.
Nesses dias de sol que tem feito em Curitiba desde que a primavera começou recebi mais cantadas e olhares na rua do que somado nos seis meses anteriores. Não é que eu esteja mais bonita, tenha mudada ou sejam meus hormônios, mas um fato é que tenho usado roupas… ora, é claro que não é nada demais, mas é o suficiente para mostrar parte das minhas pernas e um quase decote. Ou seja, um pouco a mais de pele feminina é o suficiente para deixar os homens incontroláveis a ponto de não conseguirem não demonstrar isto para mim, uma desconhecida. E quando a gente lê cenas eróticas do século XIX dá risada de que o cara tem tesão por ter visto cinco centímetros do tornozelo da mulher amada.
Eu com frequência em situações destas sinto vontade de ter um canivete na mala para me sentir segura o suficiente para fazer o cara se sentir tão violentada quanto ele me faz sentir. Não é que eu queira rasgar o bucho dele, só quero mostrar, o dedo, gritar, xingá-lo, de alguma maneira mostrar que não é direito dele me humilhar só por ter um pau no meio das pernas. Mas na grande maioria das vezes é o medo -em outras a passividade- que me impede de ter qualquer reação.
Isto me lembra que dia desses eu disse numa aula que o Rafinha Bastos -incentivava- o estupro, nesta palavra, sabendo do exagero que ela continha. O sujeito que proferia a aula, do alto da sua filosofia, me humilhou intelectualmente, dizendo que para dizer tal coisa eu teria que fazer um caminho muito longo e inadequado. Quando ele, com todo sua boa vontade progressista, disse que não podíamos ter preconceito contra “bicha” eu percebi que ele realmente não tinha mesmo a possibilidade de compreender a proximidade desta humilhação cotidiana que se arrasta por anos (possivelmente todos os das nossas vidas) ao de uma violência sexual no seu formato mais bruto.

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