Nos últimos dias a imprensa brasileira tem dedicado boa parte de seu tempo a tentar compor um discurso que explica o quê é o mundo atualmente a partir de uma análise comparativa com um fato tido como marco da nossa história recente, o chamado “ataque de 11 de setembro (de 2001)”. Pois deixemos o terrorismo de lado e vamos fazer esta análise a partir de outro marco: o desenho-quadrinhos-filme Smurf, os pequenos homenzinhos azuis. E faço um agradecimento especial ao feriado da pátria em plena quarta-feira que me permitiu ir ao cinema assistir a produção da Sony Pictures “Smurfs – o filme”.

Como não poderia deixar de ser, uma marca do filme é: ele está afim de vender. É M&M’s pra lá, Rock Band para cá, Google e várias outras marcas que na hora me chamaram atenção mas já foram ignoradas na minha memória que deram o tom da coisa, bem como os atores estrelinha Neil Patrick Harris (o glorioso Barney de How I Met Your Mother) e Jayma Mays (melhor conhecida como a conselheira Emma, de Glee), protagonistas ao lado das pequenas animações azuizinhas “do tamanho de três maçãs”. Quer dizer, para quem espera ter neste filme o ápice de um marco da sua infância, ele é uma evidente frustração.

Mas para quem quer ver para relaxar uma animação produzida por uma gigante da indústria cultural, o filme é sem dúvidas aproveitável. Em especial se for assistí-lo na companhia de uma criança, que (como todas as presentes no cinema hoje) irá se deliciar, em especial com as cenas de crueldade contra os vilões Gargamel e Cruel. Mas há ainda as referências que agradam os adultos como a imagem dos Smurfs no Empire State Building em homenagem à famosa foto de Lewis Hine ou a presença da cantora Kate Perry (que em inglês faz a voz da personagem Smurfette) como figurante em uma festa. Ainda tentando agradar os adultos, algumas inserções de mau gosto extremo como a criação do “Smurf Bipolar” que é rejeitado pois não tem como saber qual é o humor dele.

S.M.U.R.F. – Socialist Men Under Red Father

Imagem aleatória encontrada na internet

Comentar o filme a parte, a graça de falar de Smurfs é poder entrar em um antigo debate: são os Smurfs comunistas? Como disse, é uma teoria famosa e pode ser encontrada em diversas páginas e blogs com qualquer google search (como neste site que parece ter como único objetivo falar sobre esta relação).

Uma sociedade em que todos são iguais, trabalham por um bem comum, vestem a mesma roupa, o imperialismo representado por Gargamel e Cruel, a semelhança física entre Papai Smurf e Karl Marx. A teoria (e a teoria da conspiração, em especial) sobre o desenho de autoria de um belga em plena Guerra Fria (1958) vai longe.

Considerando isto como verdade, o que o filme Smurfs faz com este pequenos azuis-vermelhinhos?

A começar, o filme se passa em Nova York com referência a lugares famosos da cidade como o Central Park e o Castelo de Belvedere e isso por si só basta e não apenas um smurf compra uma cueca em que está escrito I  ♥ NEW YORK como o Papai Smurf orienta a reconstrução da Vila Smurf (destruída por Gargamel) inspirada na arquitetura de NY com grandes arranhaceis-smurf, uma estátua da liberdade-smurf e outros.

Mas nem tudo é queda do muro no filme. Além dos pequenos deixarem “Nova York mais fofa” (conforme relatado pelo smurf-narrador) o casal de humanos que se torna amigo deles é convencido de permanecer em seu apartamento e não se mudar para uma casa maior na qual eles ficariam mais longe um do outro, que pode ser interpretado como uma referência à reforma urban “nem gente sem casa nem casa sem gente”.

A crise do smurf Desastrado, que é reconhecido apenas por ser desastrado (e não pelos seus talentos e habilidades) traz uma crítica muitas vezes atribuídas aos socialistas que é um suposto não respeito à individualidade, uma vez que todos os smurfs são conhecidos pela sua única habilidade.

Smurfette, por outro lado, tem uma crise diferente que é a de ter apenas uma roupa (ela se encanta pelo fato de existir diversas roupas femininas distintas em Nova York). Agora um fato pouca atentado nesta personagem é: por que ela é diferente? Como há uma Smurf mulher criada pelo vilão que se distingue de todos os outros 99 smurfs-homem? O que leva a uma conclusão que é também um desafio contemporânea da sociedade comunista smurf: a existência de uma personagem transsexual. E talvez não seja coincidência que Smurfette cante em um trecho da música a frase “I kissed a smurf and I liked it”, em referência à frase “I kissed a girl and I liked it”, referência à música da cantora Kate Perry que, como disse, faz a voz da personagem no original em inglês. Ainda, que se registre a existência de um smurf gay, o Smurf Vaidoso que em um momento de desespero solta “eu sou muito lindo para morrer”.

A teoria é séria, tem até documentário sobre Smurfs e Comunismo:

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