Foi adentrar o ônibus e me senti olhada de uma maneira que minha reação imediata foi um desejo incontrolável de ter por baixo da roupa um cinto de castidade inviolável que me garantisse algum tipo de proteção. Tentei justificar de uma maneira racional. Afinal onze e quarenta da noite não é exatamente um horário feminino de se andar na rua, é natural chamar atenção, até quase achei exagero da minha parte querer ser reparada apenas por quem me agrada. Para o inferno esta reflexão, o olhar arregalado e fixo na minha direção, o sorriso boquiaberto e a impossibilidade de eu olhar para a frente ou de fechar os olhos em paz eram de forma que senti como se uma mão desconhecida e forte apertasse minha coxa cravando nela unhas sujas e mal cortadas.
Não foi bem uma opção, mas sentei-me exatamente em frente ao sujeito -pois também é intuitiva minha racionalidade de preferir um banco unitário a um compartilhado e coincidiu de ser este a única opção-. Atrás dele, na minha frente, dois meninos que logo se retiraram sentido Santa Cândida, um casal, supliquei internamente que eles também reparassem em mim com algum tipo de ternura ou cumplicidade mas, como disse, eles se foram e eu não aguentei, troquei de lugar para a única opção -janela- disponível, passando ao lado direito do coletivo. De canto de olho percebi que ainda não era seguro virar para a direção contrária, de forma que meu olhar ficou condenado a manter-se voltado para a direita -para a janela- sem poder confrontar meu oponente. Até que ele desviou e foi a minha chance de encará-lo e foram suas mãos cruzadas no meio das pernas e não o seu rosto que me chamou a atenção. Nervosa, tentei reparar ao mesmo tempo que me segurava para não esmurrar o vidro e me convencer, não é verdade que ele estava se tocando. Mais uma olhada, a mão continuava ali, a perna direita fez um movimento circular que pode também ter sido espasmo, minha raiva se misturou com alguma coisa de dó ou espanto, consegui pensar em alguma outra coisa qualquer, deixei de lado. Antes de descer, olhei novamente, desta vez imediata e fixamente para as mãos cruzadas. Tal como uma oração.

muito bom, nai.
não tinha achado o lugar de comentar hahahahaha
naidy eu curto muito a maneira que você conduz o texto (bom, vc faz jornal né…no mínimo escreve bem! rs) adoro essas leituras sensoriais que te fazem imaginar a cena, nos mínimos detalhes
sem falar das sutilezas ‘políticas’; acredita que eu tenho um rascunho de texto que segue a mesma idéia? qualquer dia eu posto (comunista é foda mesmo)
beijão!
nao acontece só 11:40 da noite :~
Isso é foda. É uma puta violência. E tem gente que faz questão de não se dar conta disso. Violência Sexual não só o estupro do corpo, mas esse estupro da nossa privacidade,da nossa liberdade de olhar pra onde quiser, andar como quiser e vestir o que quiser.
Tem um filme foda, acho que é francês, que vi há muito tempo, onde a protagonista é violentada no metrô. A forma com que a garota é acuada por alguns rapazes no vagão deixa claro que eles vão estuprá-la, e o único passageiro que poderia, apenas com a sua presença impedir isso, opta por descer na sua estação, mesmo com a vítima pedindo desesperadamente através do seu olhar que ele não a deixasse naquela situação.
Aí a gente fica pensando, porra…que merda.