Na primeira vez em que passei o feriado de páscoa longe de casa fazia-se ainda cestas decoradas, com tipos diversos de doces, passos de coelho no chão feitos com farinha, configurando-se em um dos únicos dias no ano em que acordava antes das dez da manhã sem ser obrigada a ir para a aula. Era sexta ou sétima série e minha mãe não compreendia minha escolha pelos amigos em uma viagem que nem seria assim tão legal (escolha esta que mantive vezes outras não só sobre a família, mas sobre namoros e outras tantas situações). Foi de forma tal que quando me decidi por acampar aquela vez a crise de não estar em casa tinha ficado anos para trás.

A viagem não foi a opção mais esperada à minha personalidade. Tanto não me agrada um isolamento total de sinais de sociabilidade, quanto multidões com alta taxa de confraternização entre desconhecidos. Felizmente –e possivelmente não por acaso– me relaciono intimamente com gente que entende como é importante desenvolver esta delicada mediação. Não sei como ocorreu, mas nos convencemos que este camping seria isolado o suficiente para garantir a nossa privacidade, mas não a ponto de enlouquecermos por falta de companhia estranha.

Tenho uma mania quase desagradável de observar as pessoas, em especial meninas bonitas. Claro, é o que faz grande parte das pessoas minimamente normais, mas tenho uma coisa de inculcar com algumas pessoas e buscá-las no meu campo de visão para observar elas e nada mais. Aí foi que o cabelo meio bagunçado, a manga da blusa caindo de um jeito agradável no ombro, um jeito de andar marcante e desenvolto e eu torci para que estivesse perto de nós, sabendo que só de avistá-la poderia passar o feriado suficientemente bem.

Era já fim da tarde, montamos nossas coisas nos preparando para ter ainda uma boa noite de diversão. Uma fogueira, vinho e outras bebidas que tínhamos trazido, alguns vizinhos aglutinando-se, trazendo ou não bebida e outras coisas que ajudariam a manter viva a festinha. Eu de lado, olhando insistentemente a todos os rostos, mas sem achar quem eu queria, dormi cedo.

Meio sem querer e meio porque tenho vontade nestes momentos de exceção de fazer coisas opostas à minha personalidade, acordei cedo no outro dia. A pé, sozinha (após atravessar os restos mortais da festa do dia anterior) sentei ao pé do riacho que já sabia haver ali perto e a encontro. Acompanhada de uma amiga, não perto o suficiente para que eu pudesse ouvir a conversa, mas um tanto bom para que eu a observasse e ficasse feliz e incomodada com as retribuições de olhar. Era uma sorriso muito bonito para alguém que estava incomodado de ser olhado, mas.. e se fosse? Tentei uma sequência: olhar para a água, para baixo, quebrar um graveto e ela. E lá estava conversando animadamente e me olhando. Sem saber o que fazer, você foi embora. E eu, sem saber o que fazer.

 

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