- Não tira do lugar, eu já volto!

Quarenta e duas pedras no chão. Vinte e uma chapiscadas, catadas dos restos de pedras-de-asfalto que os homens tinham usado para tapar os buracos da rua aquela semana. Vinte e uma meio esbranquiçadas, que não iam fazer falta naquele monte de areia em frente à casa e reforma do vizinho logo ali de cima.

Dois exércitos (um general, dois tenentes, quatro sargentos, seis cabos e oito soldados de cada lado) que se encaravam naquele campo de guerra desenhado no chão, de um jogo que nós crianças da rua havíamos inventado, cujas regras eram sempre feitas meio na hora.

Sua corrida me deixou um tanto sem opção. Teria que voltar para casa almoçar. O caminhar daqueles trinta metros até o portão de casa era sempre uma tortura, em especial na hora do almoço, em pensar que aquele arroz, feijão, carne e salada torturantes me esperariam na mesa (ou quase nela).

Estranhamente minha mãe não estava na cozinha, berrando porque minhas irmãs mais velhas e meu pai “não mexem um fio de cabelo pra ajudar!”. Estava no telefone da sala, com uma cara que nunca me esqueci. Vi minha mãe chorar duas vezes e meu pai uma. Não esqueço destas e nem da expressão dela ao telefone, neste dia. Mais triste do que braba, sem explicar ela nos disse que assim que fosse o almoço faríamos as malas e uma viagem, sem mais explicar (ao menos para mim).

Foi a vez, a viagem e as férias em que minha avó morreu. E contar isso às demais crianças na volta às aulas foi impressionante. Parecia já uma história quase lega, com tantas aventuras e um momento autorreflexivo da família (acho que com o tempo ela foi parecendo menos divertida na minha memória).

Foi que neste dia não voltei. Ela deve ter encontrado os exércitos talvez mexidos por algum cachorro transeunte, talvez da maneira que tínhamos deixado. Provavelmente ficou com raiva de mim de ter prometido voltar e nada. E quando seus pais disseram que teriam que se mudar (ou viajar para outra cidade?) pode ter achado que seria como uma grande viagem de férias. Ou sentiu minha falta. Ou falta do nosso jogo de guerra, da areia na rua ou de como os carros quase nunca passavam na rua para interromper nosso jogo de futebol com o gol marcado a dois chinelos.

Advertisement