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Na saída do trabalho foi quando aprendemos a nos conhecer. De uma desculpa “mas que coincidência, este café fica e exatos cinco minutos para mim e para você” tornou-se logo um hábito. Não importava o café ser caro, requentado e desnecessário, cinco e meia o frio na barriga sem nem reparar. O email, mensagem ou telefonema viriam como confirmação. Os [minutos/momentos] que antecedem a batida de ponto [são/ficam] já de difícil concentração; instantes olhando a tela do word, alt+tab entre o chrome e o corel “o que mesmo que eu tinha que fazer aqui?”. Lembrei, mas já não dá tempo de algo ser começado agora, melhor ajeitar minhas coisas, escovar os dentes, aguardar o tempo se desenvolver sozinho.
A caminhada é tensa, sempre. Fone, o rádio tentando sem sucesso roubar um pouco da concentração – as principais notícias do dia a cada meia hora –. A olhada no celular é constante, embora saiba por amostragem que ela não ligaria, mesmo acontecesse algo.
Chegar antes ao local é desejável. Mas ainda que seja por um curto espaço de tempo – e não sei quem inventou essa história de sessenta segundos ser algo rápido – há um grande leque de opções e dúvidas em como agir. Deixar a mochila no chão ou às costas, ler o jornal, um livro, escrever, olhar a vitrine, tirar o casaco, mantê-lo. Traz uma angústia peculiar a espera quando não se trabalha com pontos fixos no tempo aos quais se referir. Angústia recompensada. O momento mais bonito é [com certeza] o sorriso dela no cruzar dos olhos [acompanhado de um brilho nos olhos castanhos], sorriso que não vem necessariamente acompanhado de alegria e, às vezes, muito pelo contrário.
O grande momento então, o encontro. Um beijo no rosto, dois cafés puros e um pão de queijo (pode deixar que eu pago) li hoje no jornal o número de mortos a cada 100mil habitantes aqui na cidade em relação a países em guerra civil na África, vindo para cá passei por uma loja de sapatos muito baratos e bonitos, acho que vou lá amanhã. Este café está um pouco frio. O óleo na bacia do México tem já um mês e parece não ter ocorrido, nos noticiários.
Preciso ir já embora. (sabe, quando criança eu olhava as datas marcadas em todos os prédios no centro da cidade, até achar o mais antigo possível). Nos vemos em uma próxima.
As despedidas em geral não envolviam uma sensação de ter encerrado um momento fabuloso e marcante, mesmo porque não o eram. E este cotidiano que deixava a vida um pouco mais leve de se conduzir era [bem] o que guardava[m] de especial.
segunda parte,
Caiu a internet. A tarde chega já no momento que o sol não pode ser nem visto da janela, passados mais de três quartos do dia útil. Penso em começar a ler ou a escrever algo, mas as bases de trabalho estão todas na rede. Organizar o arquivo, atualizar tabelas antigas, rever listas de tarefas. Todas elas passam pela internet em algum momento e parece que é melhor, então, desistir e ir embora. Dez minutos mais cedo.
Dez minutos. Cinco minutos de mim e de você. A distância em tempo que me impede e, neste momento, me permite te encontrar. O encontro, logo após o dia extenuante, seria uma espécie de alívio ou recompensa. A caminhada é tranquila, rápida e agitada como sempre, sendo interrompida apenas por uma passada na floricultura pública (a praça em frente ao prédio do escritório).
Busco andar rápido como sempre, não mais que isso. É uma forma de mostrar a mim mesma que estou agindo normalmente, ainda que a vontade seja de correr e passar por cima das pessoas tão apressadas mas não tão velozes quanto eu. Entre tantos caminhos possíveis, escolho por deixar por último a rua em que do prédio em que trabalha, posto que quero evitar a angústia de ter a sensação de estar chegando sem estar de fato. Na esquina avisto o furgão branco “flores Mathias”, trabalhadores de uniforme azul, descontentes com o final do expediente que ainda deve contar com quarenta minutos para -neste trânsito- retornar à firma e ainda uma hora até chegar em casa. Enviesado na calçada, o carro me impede de saber o que se passa mais a frente, embora dê para imaginar: barulho, cheio de fumaça, carros apressados mas sem poder correr. Em frente à porta do prédio (melhor esperar do outro lado da rua) fiquei com as flores amarela e rosa, quatro pétalas e uma folha cada, evitando roer a unha, ansiosa por um momento que era tão nosso e tão individual todos os dias. O carro de mudança não bloqueou a vista do prédio por muito tempo, logo vi que os pertences vinham do mesmo prédio que eu almejava e permaneci observando do outro lado da rua. Os primeiros dois minutos pareceram horas, olhava o relógio e após uma infinidade de pensamentos com início, meio e fim voltava a checá-lo e dez segundos haviam se passado. Na verdade os minutos subsequentes não foram diferentes e, passados cinquenta deles percebi que o pensamento que havia se iniciado meia hora antes precisava se concretizar – não havia nada que esperar e eu deveria ir embora.
Em todo o caminho para casa e até a hora de dormir meu pensamento não foi outro que não a cena da mudança que havia observado e não tinha certeza mas sabia de onde era. Não que a mudança importasse, sendo apenas uma maneira de pensar em alguém sem pensar na pessoa. Não sou muito de lembrar dos momentos bons ou dos ruins que passei com alguém e os dias se seguiram com a imagem da mudança, da cidade poluída e barulhenta no caminho que enfrentava entre um escritório e outro, das flores e do formato da calçada sem sair da minha mente durante o dia, sendo a noite ocupada por sonhos abstratos mas muito mais reais que davam forma, rosto, nome e boca ao meu sentimento. Minha memória trabalhou então da maneira que mais lhe agradava, sabendo diferenciar o racional e o sentimental de uma maneira que eu discursaria dizendo que não é possível. E logo esqueci o que tinha vivido, ignorei aqueles dias e foi como se aquela experiência nunca tivesse acontecido; o sentimento de uma euforia interrompida, da perda de uma possibilidade no entanto permaneceu sem formato, sem rosto, sem que eu o percebesse.

do caralho, nai. do caralho. fiquei sem fôlego.