Enquanto eu corria pela Getúlio Vargas, já atrasada para chegar ao Cemitério do Água Verde fui pensando em como eu não queria culpar o motorista do ônibus por ter me dado uma informação incorreta. Até porque um ponto, ou três quadras de distância não são exatamente um problema. Mas poderia ter sido e aquela inocente informação errada poderia ter sido determinante para que eu chegasse no cemitério a ponto de ver ser enterrado o corpo do meu tio-avó, o tio João (77 anos, advogado, filho de Ângelo e Ana Sequinel, conforme a Gazeta de hoje).
Graças às informações da minha tia, que encontrei na saída e é a pessoa mais bem localizada que já conheci, cheguei a tempo, graças também ao Tio João ter comprado um lote quase no muro com a José Cadilhe, o que obrigou as cerca de 150 pessoas que acompanhavam o cortejo a atravessar quase toda a extensão do cemitério.

|Muitas flores e lembranças com cara de nova enfeitavam o local, dando uma cara de que o diade finados por vir seria movimentado. Eu, que gosto de cemitérios pela sua arquitetura, decoração e por o que significam em termos de memória, acho que aprendi a respeitar a cerimônia do guardamento e enterro. Ainda que eu respeite quem tenha asco por ter sofrido perdas traumáticas, não entendeu nada quem simplesmente diz que “não gosta de ir”, quando não é você a questão e sim os outros, e é por eles que você está ali. No meu caso, mais do que qualquer pessoa, para estar com a minha mãe, uma das últimas pessoas a ter visto o tio em vida.

Embora meu tio fosse Sequinel, não me passou pela cabeça estranhar que estavam lá todos os Rosa, estes sim parentes de sangue da minha tia Nezinha, dentre os quais estava o meu pai, e parece que o deputado Stephanes Jr. o estranhou quando passou pelo guardamento “o que o Piva está fazendo aqui?”. Aliás, foi em conversas sobre este meu tio que, quando criança, descobri que havia pessoas na família que não eram de esquerda, muito pelo contrário e eventualmente isso causa desconfortos, como tempos atrás no aniversário da minha avó quando o prefeito tucano de uma cidade do interior teve que ser retirar quando, após uns bons goles, meu tio-avô caçula começou a gritar que o PSDB odiava o povo e o Lula tinha salvado o Brasil.

Não muito tempo depois o caixão logo foi fazer companhia ao tio Anderson, que lá está desde 2005 e foi a primeira pessoa próxima da família a morrer, embora eu não consiga lembrar nem seu rosto nem nenhum momento em que esteve presente na minha vida.

A morte de uma pessoa mais velha não é lamentada com o choro, é antes uma tristeza no olhar, uma falta de brilho, uma tristeza de quem sabe a grandeza da vida que vai embora, ainda que não se permita ser pego de surpresa. Ou talvez isso seja um pouco o espiritismo, e sei que não leva muito tempo para em um evento familiar ouvir o comentário “o João esteve lá no Centro esta semana. Diz ele que está bem, e que está cuidando de outros espíritos por lá”.

Hoje indo pegar o ônibus escutei um cara gritar “ô, guria”. Continuei andando, na esperança de fingir ter achado não ser comigo. Ouvi de novo, olhei pro lado e o cara me olhava, rindo, sentando no banco do carona do carro de um amigo dele que também me olhava rindo. Respondi mostrando meu dedo do meio, sem olhar, em uma pequena vingancinha pessoal boba que me deixou pelo menos aliviada. Foi eu entrar no tubo e um carro parou no sinaleiro, buzinou e gritou para mim “quer carona?”.
Nesses dias de sol que tem feito em Curitiba desde que a primavera começou recebi mais cantadas e olhares na rua do que somado nos seis meses anteriores. Não é que eu esteja mais bonita, tenha mudada ou sejam meus hormônios, mas um fato é que tenho usado roupas… ora, é claro que não é nada demais, mas é o suficiente para mostrar parte das minhas pernas e um quase decote. Ou seja, um pouco a mais de pele feminina é o suficiente para deixar os homens incontroláveis a ponto de não conseguirem não demonstrar isto para mim, uma desconhecida. E quando a gente lê cenas eróticas do século XIX dá risada de que o cara tem tesão por ter visto cinco centímetros do tornozelo da mulher amada.
Eu com frequência em situações destas sinto vontade de ter um canivete na mala para me sentir segura o suficiente para fazer o cara se sentir tão violentada quanto ele me faz sentir. Não é que eu queira rasgar o bucho dele, só quero mostrar, o dedo, gritar, xingá-lo, de alguma maneira mostrar que não é direito dele me humilhar só por ter um pau no meio das pernas. Mas na grande maioria das vezes é o medo -em outras a passividade- que me impede de ter qualquer reação.
Isto me lembra que dia desses eu disse numa aula que o Rafinha Bastos -incentivava- o estupro, nesta palavra, sabendo do exagero que ela continha. O sujeito que proferia a aula, do alto da sua filosofia, me humilhou intelectualmente, dizendo que para dizer tal coisa eu teria que fazer um caminho muito longo e inadequado. Quando ele, com todo sua boa vontade progressista, disse que não podíamos ter preconceito contra “bicha” eu percebi que ele realmente não tinha mesmo a possibilidade de compreender a proximidade desta humilhação cotidiana que se arrasta por anos (possivelmente todos os das nossas vidas) ao de uma violência sexual no seu formato mais bruto.

Nos últimos dias a imprensa brasileira tem dedicado boa parte de seu tempo a tentar compor um discurso que explica o quê é o mundo atualmente a partir de uma análise comparativa com um fato tido como marco da nossa história recente, o chamado “ataque de 11 de setembro (de 2001)”. Pois deixemos o terrorismo de lado e vamos fazer esta análise a partir de outro marco: o desenho-quadrinhos-filme Smurf, os pequenos homenzinhos azuis. E faço um agradecimento especial ao feriado da pátria em plena quarta-feira que me permitiu ir ao cinema assistir a produção da Sony Pictures “Smurfs – o filme”.

Como não poderia deixar de ser, uma marca do filme é: ele está afim de vender. É M&M’s pra lá, Rock Band para cá, Google e várias outras marcas que na hora me chamaram atenção mas já foram ignoradas na minha memória que deram o tom da coisa, bem como os atores estrelinha Neil Patrick Harris (o glorioso Barney de How I Met Your Mother) e Jayma Mays (melhor conhecida como a conselheira Emma, de Glee), protagonistas ao lado das pequenas animações azuizinhas “do tamanho de três maçãs”. Quer dizer, para quem espera ter neste filme o ápice de um marco da sua infância, ele é uma evidente frustração.

Mas para quem quer ver para relaxar uma animação produzida por uma gigante da indústria cultural, o filme é sem dúvidas aproveitável. Em especial se for assistí-lo na companhia de uma criança, que (como todas as presentes no cinema hoje) irá se deliciar, em especial com as cenas de crueldade contra os vilões Gargamel e Cruel. Mas há ainda as referências que agradam os adultos como a imagem dos Smurfs no Empire State Building em homenagem à famosa foto de Lewis Hine ou a presença da cantora Kate Perry (que em inglês faz a voz da personagem Smurfette) como figurante em uma festa. Ainda tentando agradar os adultos, algumas inserções de mau gosto extremo como a criação do “Smurf Bipolar” que é rejeitado pois não tem como saber qual é o humor dele.

S.M.U.R.F. – Socialist Men Under Red Father

Imagem aleatória encontrada na internet

Comentar o filme a parte, a graça de falar de Smurfs é poder entrar em um antigo debate: são os Smurfs comunistas? Como disse, é uma teoria famosa e pode ser encontrada em diversas páginas e blogs com qualquer google search (como neste site que parece ter como único objetivo falar sobre esta relação).

Uma sociedade em que todos são iguais, trabalham por um bem comum, vestem a mesma roupa, o imperialismo representado por Gargamel e Cruel, a semelhança física entre Papai Smurf e Karl Marx. A teoria (e a teoria da conspiração, em especial) sobre o desenho de autoria de um belga em plena Guerra Fria (1958) vai longe.

Considerando isto como verdade, o que o filme Smurfs faz com este pequenos azuis-vermelhinhos?

A começar, o filme se passa em Nova York com referência a lugares famosos da cidade como o Central Park e o Castelo de Belvedere e isso por si só basta e não apenas um smurf compra uma cueca em que está escrito I  ♥ NEW YORK como o Papai Smurf orienta a reconstrução da Vila Smurf (destruída por Gargamel) inspirada na arquitetura de NY com grandes arranhaceis-smurf, uma estátua da liberdade-smurf e outros.

Mas nem tudo é queda do muro no filme. Além dos pequenos deixarem “Nova York mais fofa” (conforme relatado pelo smurf-narrador) o casal de humanos que se torna amigo deles é convencido de permanecer em seu apartamento e não se mudar para uma casa maior na qual eles ficariam mais longe um do outro, que pode ser interpretado como uma referência à reforma urban “nem gente sem casa nem casa sem gente”.

A crise do smurf Desastrado, que é reconhecido apenas por ser desastrado (e não pelos seus talentos e habilidades) traz uma crítica muitas vezes atribuídas aos socialistas que é um suposto não respeito à individualidade, uma vez que todos os smurfs são conhecidos pela sua única habilidade.

Smurfette, por outro lado, tem uma crise diferente que é a de ter apenas uma roupa (ela se encanta pelo fato de existir diversas roupas femininas distintas em Nova York). Agora um fato pouca atentado nesta personagem é: por que ela é diferente? Como há uma Smurf mulher criada pelo vilão que se distingue de todos os outros 99 smurfs-homem? O que leva a uma conclusão que é também um desafio contemporânea da sociedade comunista smurf: a existência de uma personagem transsexual. E talvez não seja coincidência que Smurfette cante em um trecho da música a frase “I kissed a smurf and I liked it”, em referência à frase “I kissed a girl and I liked it”, referência à música da cantora Kate Perry que, como disse, faz a voz da personagem no original em inglês. Ainda, que se registre a existência de um smurf gay, o Smurf Vaidoso que em um momento de desespero solta “eu sou muito lindo para morrer”.

A teoria é séria, tem até documentário sobre Smurfs e Comunismo:

Foi adentrar o ônibus e me senti olhada de uma maneira que minha reação imediata foi um desejo incontrolável de ter por baixo da roupa um cinto de castidade inviolável que me garantisse algum tipo de proteção. Tentei justificar de uma maneira racional. Afinal onze e quarenta da noite não é exatamente um horário feminino de se andar na rua, é natural chamar atenção, até quase achei exagero da minha parte querer ser reparada apenas por quem me agrada. Para o inferno esta reflexão, o olhar arregalado e fixo na minha direção, o sorriso boquiaberto e a impossibilidade de eu olhar para a frente ou de fechar os olhos em paz eram de forma que senti como se uma mão desconhecida e forte apertasse minha coxa cravando nela unhas sujas e mal cortadas.
Não foi bem uma opção, mas sentei-me exatamente em frente ao sujeito -pois também é intuitiva minha racionalidade de preferir um banco unitário a um compartilhado e coincidiu de ser este a única opção-. Atrás dele, na minha frente, dois meninos que logo se retiraram sentido Santa Cândida, um casal, supliquei internamente que eles também reparassem em mim com algum tipo de ternura ou cumplicidade mas, como disse, eles se foram e eu não aguentei, troquei de lugar para a única opção -janela- disponível, passando ao lado direito do coletivo. De canto de olho percebi que ainda não era seguro virar para a direção contrária, de forma que meu olhar ficou condenado a manter-se voltado para a direita -para a janela- sem poder confrontar meu oponente. Até que ele desviou e foi a minha chance de encará-lo e foram suas mãos cruzadas no meio das pernas e não o seu rosto que me chamou a atenção. Nervosa, tentei reparar ao mesmo tempo que me segurava para não esmurrar o vidro e me convencer, não é verdade que ele estava se tocando. Mais uma olhada, a mão continuava ali, a perna direita fez um movimento circular que pode também ter sido espasmo, minha raiva se misturou com alguma coisa de dó ou espanto, consegui pensar em alguma outra coisa qualquer, deixei de lado. Antes de descer, olhei novamente, desta vez imediata e fixamente para as mãos cruzadas. Tal como uma oração.

“Vamos à praia!” um dia desses, um final de semana depois desse, quando der, um dia qualquer, a gente merece, tem que descansar. A história se repete parece que indefinidamente com o padrão de nunca se concretizar. Não sei qual conjugação de astros foi que permitiu uma viagem de longos três dias seguidos em um feriado. Em que não era mais calor. Nem frio, em fins de março.

Esses festivais de cinema de cidade pequena são um curioso evento do turismo. No qual você reune pessoas diferentes mas nem tanto entre si, em um espaço que não possui nenhum motivo em especial para ser, realizando uma atividade que ao mesmo tempo é cotidiana ou ao menos comum às pessoas, é também de total estranhamento ao local.

Ignorar a realidade daqueles próximos a mim e sair fazer sozinha uma coisa qualquer no entorno é um desses costumes não racionalizados meus. Me controlo até para que não prejudique minha sociabilidade, mas acaba ocorrendo natural inevitavelmente. Tiradas as coisas do carro, ajeitadas na casa com cara de avózinha [que foi morar em um apartamento apartado com a filha na cidade um pouco mais grande] ignorei, quase que sem querer, o momento de estabelecimento de regras e cronogramas. Encontrei um parquinho desses que a prefeitura não cuida muito, não se importa em vir cortar a grama com tanto afinco mas tem lá uma balança e gangorra que são vez ou outra aproveitados, ainda que enferrujados. Na padaria, um senhor com típica cara de morador antigo da região, comprei uma cerveja e sentei no banco, olhando fixamente para o chão, mexendo na areia e buscando não pensar (e não ter que pensar em não pensar) em preocupações não findas e por continuar do lado de lá da viagem.

Olhando para os lados, meu estômago comprimiu. Em uma daquelas vezes em que temos antes uma reação física de sequer perceber que algo está acontecendo.

Na primeira vez em que passei o feriado de páscoa longe de casa fazia-se ainda cestas decoradas, com tipos diversos de doces, passos de coelho no chão feitos com farinha, configurando-se em um dos únicos dias no ano em que acordava antes das dez da manhã sem ser obrigada a ir para a aula. Era sexta ou sétima série e minha mãe não compreendia minha escolha pelos amigos em uma viagem que nem seria assim tão legal (escolha esta que mantive vezes outras não só sobre a família, mas sobre namoros e outras tantas situações). Foi de forma tal que quando me decidi por acampar aquela vez a crise de não estar em casa tinha ficado anos para trás.

A viagem não foi a opção mais esperada à minha personalidade. Tanto não me agrada um isolamento total de sinais de sociabilidade, quanto multidões com alta taxa de confraternização entre desconhecidos. Felizmente –e possivelmente não por acaso– me relaciono intimamente com gente que entende como é importante desenvolver esta delicada mediação. Não sei como ocorreu, mas nos convencemos que este camping seria isolado o suficiente para garantir a nossa privacidade, mas não a ponto de enlouquecermos por falta de companhia estranha.

Tenho uma mania quase desagradável de observar as pessoas, em especial meninas bonitas. Claro, é o que faz grande parte das pessoas minimamente normais, mas tenho uma coisa de inculcar com algumas pessoas e buscá-las no meu campo de visão para observar elas e nada mais. Aí foi que o cabelo meio bagunçado, a manga da blusa caindo de um jeito agradável no ombro, um jeito de andar marcante e desenvolto e eu torci para que estivesse perto de nós, sabendo que só de avistá-la poderia passar o feriado suficientemente bem.

Era já fim da tarde, montamos nossas coisas nos preparando para ter ainda uma boa noite de diversão. Uma fogueira, vinho e outras bebidas que tínhamos trazido, alguns vizinhos aglutinando-se, trazendo ou não bebida e outras coisas que ajudariam a manter viva a festinha. Eu de lado, olhando insistentemente a todos os rostos, mas sem achar quem eu queria, dormi cedo.

Meio sem querer e meio porque tenho vontade nestes momentos de exceção de fazer coisas opostas à minha personalidade, acordei cedo no outro dia. A pé, sozinha (após atravessar os restos mortais da festa do dia anterior) sentei ao pé do riacho que já sabia haver ali perto e a encontro. Acompanhada de uma amiga, não perto o suficiente para que eu pudesse ouvir a conversa, mas um tanto bom para que eu a observasse e ficasse feliz e incomodada com as retribuições de olhar. Era uma sorriso muito bonito para alguém que estava incomodado de ser olhado, mas.. e se fosse? Tentei uma sequência: olhar para a água, para baixo, quebrar um graveto e ela. E lá estava conversando animadamente e me olhando. Sem saber o que fazer, você foi embora. E eu, sem saber o que fazer.

 

- Não tira do lugar, eu já volto!

Quarenta e duas pedras no chão. Vinte e uma chapiscadas, catadas dos restos de pedras-de-asfalto que os homens tinham usado para tapar os buracos da rua aquela semana. Vinte e uma meio esbranquiçadas, que não iam fazer falta naquele monte de areia em frente à casa e reforma do vizinho logo ali de cima.

Dois exércitos (um general, dois tenentes, quatro sargentos, seis cabos e oito soldados de cada lado) que se encaravam naquele campo de guerra desenhado no chão, de um jogo que nós crianças da rua havíamos inventado, cujas regras eram sempre feitas meio na hora.

Sua corrida me deixou um tanto sem opção. Teria que voltar para casa almoçar. O caminhar daqueles trinta metros até o portão de casa era sempre uma tortura, em especial na hora do almoço, em pensar que aquele arroz, feijão, carne e salada torturantes me esperariam na mesa (ou quase nela).

Estranhamente minha mãe não estava na cozinha, berrando porque minhas irmãs mais velhas e meu pai “não mexem um fio de cabelo pra ajudar!”. Estava no telefone da sala, com uma cara que nunca me esqueci. Vi minha mãe chorar duas vezes e meu pai uma. Não esqueço destas e nem da expressão dela ao telefone, neste dia. Mais triste do que braba, sem explicar ela nos disse que assim que fosse o almoço faríamos as malas e uma viagem, sem mais explicar (ao menos para mim).

Foi a vez, a viagem e as férias em que minha avó morreu. E contar isso às demais crianças na volta às aulas foi impressionante. Parecia já uma história quase lega, com tantas aventuras e um momento autorreflexivo da família (acho que com o tempo ela foi parecendo menos divertida na minha memória).

Foi que neste dia não voltei. Ela deve ter encontrado os exércitos talvez mexidos por algum cachorro transeunte, talvez da maneira que tínhamos deixado. Provavelmente ficou com raiva de mim de ter prometido voltar e nada. E quando seus pais disseram que teriam que se mudar (ou viajar para outra cidade?) pode ter achado que seria como uma grande viagem de férias. Ou sentiu minha falta. Ou falta do nosso jogo de guerra, da areia na rua ou de como os carros quase nunca passavam na rua para interromper nosso jogo de futebol com o gol marcado a dois chinelos.

1

Na saída do trabalho foi quando aprendemos a nos conhecer. De uma desculpa “mas que coincidência, este café fica e exatos cinco minutos para mim e para você” tornou-se logo um hábito. Não importava o café ser caro, requentado e desnecessário, cinco e meia o frio na barriga sem nem reparar. O email, mensagem ou telefonema viriam como confirmação. Os [minutos/momentos] que antecedem a batida de ponto [são/ficam] já de difícil concentração; instantes olhando a tela do word, alt+tab entre o chrome e o corel “o que mesmo que eu tinha que fazer aqui?”. Lembrei, mas já não dá tempo de algo ser começado agora, melhor ajeitar minhas coisas, escovar os dentes, aguardar o tempo se desenvolver sozinho.

A caminhada é tensa, sempre. Fone, o rádio tentando sem sucesso roubar um pouco da concentração – as principais notícias do dia a cada meia hora –. A olhada no celular é constante, embora saiba por amostragem que ela não ligaria, mesmo acontecesse algo.

Chegar antes ao local é desejável. Mas ainda que seja por um curto espaço de tempo – e não sei quem inventou essa história de sessenta segundos ser algo rápido – há um grande leque de opções e dúvidas em como agir. Deixar a mochila no chão ou às costas, ler o jornal, um livro, escrever, olhar a vitrine, tirar o casaco, mantê-lo. Traz uma angústia peculiar a espera quando não se trabalha com pontos fixos no tempo aos quais se referir. Angústia recompensada. O momento mais bonito é [com certeza] o sorriso dela no cruzar dos olhos [acompanhado de um brilho nos olhos castanhos], sorriso que não vem necessariamente acompanhado de alegria e, às vezes, muito pelo contrário.

O grande momento então, o encontro. Um beijo no rosto, dois cafés puros e um pão de queijo (pode deixar que eu pago) li hoje no jornal o número de mortos a cada 100mil habitantes aqui na cidade em relação a países em guerra civil na África, vindo para cá passei por uma loja de sapatos muito baratos e bonitos, acho que vou lá amanhã. Este café está um pouco frio. O óleo na bacia do México tem já um mês e parece não ter ocorrido, nos noticiários.

Preciso ir já embora. (sabe, quando criança eu olhava as datas marcadas em todos os prédios no centro da cidade, até achar o mais antigo possível). Nos vemos em uma próxima.

As despedidas em geral não envolviam uma sensação de ter encerrado um momento fabuloso e marcante, mesmo porque não o eram. E este cotidiano que deixava a vida um pouco mais leve de se conduzir era [bem] o que guardava[m] de especial.

segunda parte,

Caiu a internet. A tarde chega já no momento que o sol não pode ser nem visto da janela, passados mais de três quartos do dia útil. Penso em começar a ler ou a escrever algo, mas as bases de trabalho estão todas na rede. Organizar o arquivo, atualizar tabelas antigas, rever listas de tarefas. Todas elas passam pela internet em algum momento e parece que é melhor, então, desistir e ir embora. Dez minutos mais cedo.

Dez minutos. Cinco minutos de mim e de você. A distância em tempo que me impede e, neste momento, me permite te encontrar. O encontro, logo após o dia extenuante, seria uma espécie de alívio ou recompensa. A caminhada é tranquila, rápida e agitada como sempre, sendo interrompida apenas por uma passada na floricultura pública (a praça em frente ao prédio do escritório).

Busco andar rápido como sempre, não mais que isso. É uma forma de mostrar a mim mesma que estou agindo normalmente, ainda que a vontade seja de correr e passar por cima das pessoas tão apressadas mas não tão velozes quanto eu. Entre tantos caminhos possíveis, escolho por deixar por último a rua em que do prédio em que trabalha, posto que quero evitar a angústia de ter a sensação de estar chegando sem estar de fato. Na esquina avisto o furgão branco “flores Mathias”, trabalhadores de uniforme azul, descontentes com o final do expediente que ainda deve contar com quarenta minutos para -neste trânsito- retornar à firma e ainda uma hora até chegar em casa. Enviesado na calçada, o carro me impede de saber o que se passa mais a frente, embora dê para imaginar: barulho, cheio de fumaça, carros apressados mas sem poder correr. Em frente à porta do prédio (melhor esperar do outro lado da rua) fiquei com as flores amarela e rosa, quatro pétalas e uma folha cada, evitando roer a unha, ansiosa por um momento que era tão nosso e tão individual todos os dias. O carro de mudança não bloqueou a vista do prédio por muito tempo, logo vi que os pertences vinham do mesmo prédio que eu almejava e permaneci observando do outro lado da rua. Os primeiros dois minutos pareceram horas, olhava o relógio e após uma infinidade de pensamentos com início, meio e fim voltava a checá-lo e dez segundos haviam se passado. Na verdade os minutos subsequentes não foram diferentes e, passados cinquenta deles percebi que o pensamento que havia se iniciado meia hora antes precisava se concretizar – não havia nada que esperar e eu deveria ir embora.

Em todo o caminho para casa e até a hora de dormir meu pensamento não foi outro que não a cena da mudança que havia observado e não tinha certeza mas sabia de onde era. Não que a mudança importasse, sendo apenas uma maneira de pensar em alguém sem pensar na pessoa. Não sou muito de lembrar dos momentos bons ou dos ruins que passei com alguém e os dias se seguiram com a imagem da mudança, da cidade poluída e barulhenta no caminho que enfrentava entre um escritório e outro, das flores e do formato da calçada sem sair da minha mente durante o dia, sendo a noite ocupada por sonhos abstratos mas muito mais reais que davam forma, rosto, nome e boca ao meu sentimento. Minha memória trabalhou então da maneira que mais lhe agradava, sabendo diferenciar o racional e o sentimental de uma maneira que eu discursaria dizendo que não é possível. E logo esqueci o que tinha vivido, ignorei aqueles dias e foi como se aquela experiência nunca tivesse acontecido; o sentimento de uma euforia interrompida, da perda de uma possibilidade no entanto permaneceu sem formato, sem rosto, sem que eu o percebesse.

Como layout novo requer post novo, uma boa citação do livro História do Cerco de Lisboa do José Saramago. Recordando a aula de História, a península Ibérica foi por muitos anos território em que predominavam os mouros, quer dizer, islâmicos. O cerco de Lisboa seria a origem da nação portuguesa.

Mas isso não importa. o que importa é a maneira que ele lida com a escrita e, neste caso, o gênero na escrita.

Pensai que se não vencermos esta guerra Portugal se acabará antes de ter começado, e assim não poderão ser portugueses tantos reis que estão por vir, tantos presidentes, tantos militares, tantos santos, e poetas, e ministros, e cavadores de enxada, e bispos, e navegantes, e artistas, e operários, e escriturários, e frades, e directores, por comodidades de expressão é que falo no masculino, por al não, que em verdade não estou esquecido das portuguesas, as rainhas, as santas, as poetisas, as directoras, ora para que venhamos a ter tudo isto na nossa história, e o mais que não direi para não alongar o discurso e porque nem tudo se pode saber já hoje, para vir a ter tudo isto é preciso começar por conquistar Lisboa, portanto vamos a ela.

SARAMAGO, José. História do Cerco de Lisboa. Folha de São Paulo, 2003, página 212

Follow

Get every new post delivered to your Inbox.